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Por que incentivar jovens brasileiros na astronomia?
13/01/2022 21:08 em Política

Artigo escrito pelo Professor do Instituto de Física da USP e coordenador do radiotelescópio BINGO Elcio Abdalla, sobre a tendência e consequências da falta de investimento em Ciência para os jovens no Brasil

Por Elcio Abdalla*

A ciência vem perdendo espaço não apenas nos investimentos, mas também no discurso. É impossível que esse conhecimento perca importância e relevância para a sociedade, mas no Brasil ele vem sendo não só esquecido, mas também minado, inclusive pelas autoridades. A desinformação e o discurso anti-ciência, que ficaram ainda mais evidentes na pandemia da Covid-19 vem ganhando espaço. Há muitas consequências nefastas desse novo tempo (e pensamento) do país. Além dos cortes crescentes no investimento em educação e da fuga de cérebros para outras nações, uma mentalidade que afasta os jovens da formação científica já pode ser percebida.

Uma das áreas é a astronomia. A área historicamente sofre com falta de investimentos, mas a situação atual é inédita. Precisamos voltar a atrair os jovens para olhar os céus, prática que vem de tempos imemoriais e que nos ajudou desde o início da agricultura até as grandes navegações, entre outros momentos históricos importantes, incluindo a invenção do GPS. O discurso anti-ciência não pode deixar que os brasileiros se afastem deste conhecimento, afinal os jovens serão os pensadores do futuro e a autonomia científica do Brasil dependerá também deles. O conhecimento dos céus tem revolucionado as sociedades desde o início dos tempos e, sem o interesse dos jovens em astronomia, o Brasil pode, novamente, ficar para trás na produção deste conhecimento, tão importante quanto estratégico para o futuro e a melhoria do país.

Mas, você sabe quando a astronomia começa em nossas vidas e como ela influencia a nossa vida como sociedade, desde sempre?

Impossível dizer em detalhe por conta da profundidade do assunto. Mas já na antiguidade havia um grande interesse prático no estudo dos céus. Quando começamos a virar astrônomos? Pode-se dizer que, em certo grau, desde que começamos a plantar e revolucionamos a sociedade com a agricultura, prática que nos permitiu abandonar o nomadismo e ter mais tempo para pensar, começar a tentar entender e a explicar como o mundo funcionava.

Mas para a agricultura funcionar, o ser humano começou a perceber que as plantas cresciam melhor e com melhor proveito em certas condições meteorológicas. Foi observando-se os céus que percebemos que a regularidade das estações do ano permitia antever a melhor fase para o plantio e a melhor fase para a colheita. Foi a observação dos dias referentes aos solstícios e aos equinócios. O solstício de verão corresponde ao dia mais longo, e o de inverno ao dia mais curto. Nos equinócios de primavera e de outono, temos o início destas estações. Estes dias são conhecidos desde há muito tempo. O plantio e a colheita estão diretamente ligados à vida e sua época é definida pela observação astronômica.

Outro exemplo de que a nossa “verve” astrônoma é parte de nós: muitos povos viveram e até hoje vivem em meio a desertos. Andar em um deserto sem ter ideia de direção pode significar a morte. Os guias das caravanas precisavam adquirir conhecimento astronômico para se guiarem pelas estrelas. Os árabes se especializaram nesta arte, e o céu foi escrutinado em detalhes com eles. Claro que não apenas eles. As grandes navegações a partir do século XV basearam-se em grande parte nestes conhecimentos.

Outro exemplo que mostra como a astronomia está presente em nosso dia a dia: o calendário é essencial para uma sociedade complexa. Não foi ninguém menos que o grande imperador Júlio César que trouxe o primeiro calendário correto, o calendário juliano, que com a pequena correção que foi feita 1.500 anos mais tarde por Copérnico tornou-se o Calendário Gregoriano, usado hoje universalmente - inclusive por nós, todos os dias. Estes são apenas três casos que nos dão uma ideia da importância da astronomia em sua vertente prática. Hoje, a observação dos céus nos permitiram, entre outros, e apenas para dar um exemplo, o utilíssimo GPS.

O conhecimento do Setor Escuro do Universo (95% do Cosmos) é uma das áreas mais misteriosas que o ser humano ainda não conseguiu desvendar. Se até hoje, com o conhecimento que temos, conseguimos revolucionar as sociedades de tantas formas, saber mais sobre essa parte do universo pode ser revolucionário. E, aqui no Brasil, temos a oportunidade de participar nessas descobertas com o Bingo, radiotelescópio inédito do país, que será instalado no Sertão da Paraíba e foi apelidado de "Diamante do Sertão”.

O objetivo principal é explorar novas possibilidades na observação do universo a partir do céu brasileiro. A proposta é estudar a energia escura e também o fenômeno Fast Radio Bursts [“rajadas rápidas de rádio”, em tradução livre], ainda pouco conhecido e estão entre os fenômenos mais energéticos do Universo. Emitem, por vezes em milissegundos, o equivalente a toda produção de energia pelo Sol em três dias.

Assim, contribuirá com a visão do Hemisfério Sul para um trabalho sobre o fenômeno que já vem sendo realizado por meio do Chime (Canadian Hydrogen Intensity Mapping Experiment) no Hemisfério Norte. No futuro, além de uma compreensão sofisticada do Universo, teremos eventualmente fontes mais complexas de energia limpa, viagens para fora da Terra, hoje já realidade, prevenção de quedas de asteroides, também hoje quase uma realidade (lembremo-nos que os asteróides caídos na Terra foram responsáveis por grandes extinções), eventual busca de vida fora do planeta Terra.

Estas são algumas das razões pelas quais o estudo da Astronomia e da Cosmologia não é apenas um diletantismo, nem um instrumento de um sincretismo falso, como astrologia, mas algo útil e economicamente viável que serve até mesmo para que se coloque um limite na obscuridade e insere a Ciência em um patamar merecido dentro da cultura e do conhecimento humano.

*Elcio Abdalla é físico teórico brasileiro com reconhecimento internacional e importante liderança na pesquisa de física teórica no Brasil. Com doutorado e pós-doutorado pela Universidade de São Paulo, é atualmente professor titular do Instituto de Física dessa universidade, além de coordenador do Projeto Bingo, radiotelescópio brasileiro que está sendo construído no interior da Paraíba que fará o mapeamento na parte escura do universo

 

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